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Encontre seu lugar no mundo: Um lugar para viver, para desgrudar dos problemas ou para se entregar ao sentido de apenas ser.

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A terra do poeta, ainda mais bela do exílio, é farta de palmeiras, onde cantam sabiás. O pedaço do sambista tem batuque até de manhã, enquanto o refúgio do migrante arrebata pelo avesso, pelo contraste. A pátria – biológica ou adotiva –, a casa, o chão onde escolhemos fincar raízes e frutificar espelha o anseio humano ancestral de pertencer, de ser parte de um universo que, embora vasto e diverso, é generoso o suficiente para acolher nossa singularidade. Há quem se alimente da efervescência da metrópole, onde jamais se sente só. Outros se refazem na quietude das montanhas, no vagar do campo, no frescor da beira-mar. Numa casa pequena ou num apartamento grande. Com varanda ou laje. Telha cerâmica ou cobertura de palha. Repousando na rua detrás ou a léguas do quintal da infância. O que está em questão é a possibilidade de, nesse cenário e somente nele, ouvir as batidas do coração, cultivar afetos, plantar mudas, sorver o presente e vislumbrar um futuro bom. É por isso que, ao encontrar seu porto seguro, a alma festeja: “É aqui que eu quero ficar”. Feliz de quem ausculta o chamado.

 

O poeta e Nobel de literatura Pablo Neruda (1904-1973) teve esse privilégio. De tão caudaloso, o amor por sua terra natal se esparramou por três endereços em solo chileno. Cada morada, um caso de amor: La Chascona (“A Descabelada”) foi erguida em Santiago em homenagem à Matilde Urrutia, sua terceira esposa; em Valparaíso, cidade portuária apinhada de morros e ladeiras, o poeta achou, no alto, “uma casinha para viver e trabalhar tranquilo” e a chamou La Sebastiana; por fim, a edificação batizada de Isla Negra, situada numa cidadezinha costeira, literalmente debruçada sobre o azul, o fascinou por seu “tumultuado movimento oceânico”, trilha sonora que embalou a maior parte de seus escritos. Os três santuários, abertos à visitação, são povoados de objetos íntimos a espelhar a alma do proprietário e suas paixões: os livros, o amor, o mar, a política, os amigos. Mas foi a selvagem Isla Negra a escolhida para abrigar os restos mortais do artista, eternizando o elo entre o homem e a paisagem. Tal desejo aparece no poema intitulado Disposiciones, em que o autor diz: “Companheiros, enterrem-me em Isla Negra, de frente ao mar que conheço e que meus olhos perdidos não voltarão a ver”.

 

Por esse mundão há tanto Nerudas, nacionalistas por devoção, como ciganos. Espíritos livres, estes precisam de muitas paragens ao longo da vida. E assim vão semeando amores e aventuras por onde passam. O fato é que, em algum momento da jornada de cada um – ou em vários –, bate a inquietação: “Em que lugar do planeta quero viver até o último dia? Do que e de quem preciso me desgarrar para ser feliz?” Nessa hora, é preciso coragem para romper as amarras que nos prendem há tempos ao mesmo assoalho. Nem sempre nossa Pasárgada – refúgio idealizado pelo poeta Manuel Bandeira – coincide com o lugar onde nascemos. Não raro, décadas de andanças são necessárias para, enfim, se reconhecer na aldeia sonhada. E, se ela nos apraz como nenhuma outra, é porque reúne, concreta e simbolicamente, aspectos relacionados a nosso eu mais profundo. “A casa é uma dimensão do corpo. Ela expressa nossa identidade, nossos símbolos, nosso percurso. No habitar fazemos história e estórias, cultivamos recursos para nos cuidar, descansar, transformar, sonhar, recriar”, avalia a psicoterapeuta junguiana Elisabete Sofia Lepera, pesquisadora de contos, mitos e símbolos e professora do Instituto Sedes Sapientiae e da Palas Athena, em São Paulo. Segundo ela, essa construção requer poucos tijolos, mas, todos eles, essenciais. “É importante que os espaços sejam vivos, que neles encontremos a natureza, que meditemos para ouvir nosso coração, o coração da cidade, da terra”, acrescenta.

 

Elo invisível

 

Aparentemente cindidos, o fora e o dentro são, na verdade, indivisíveis. Uma instância alimenta a outra, na visão da paisagista e engenheira florestal Kátia Rodrigues de Almeida Secches, de São Paulo, que há 20 anos estuda a dinâmica entre o exterior e o interior do ser humano. “Ainda que não tenhamos consciência, o local onde vivemos interfere de forma significativa em nosso íntimo”, afirma. Por mais que a razão, tantas vezes, tente direcionar nossas pegadas, não tem jeito: a alma persegue o belo, entendido pela especialista como um estado de harmonia que conduz à transcendência da realidade rumo a um tipo de contentamento mais elevado. Esse deslumbramento, ela assegura, quando provocado pela casa ou pela paisagem ao redor, tem o poder de restaurar nossas forças. “Trata-se de uma via de mão dupla. Para ser capaz de desejar e criar um lugar especial, é preciso estar em harmonia, ao passo que locais harmonizados ajudam o indivíduo a se centrar”, destaca Kátia.

 

O modelo e ator Paulo Zulu conhece bem essa simbiose. Depois de morar em grandes centros, como Milão, Paris e Nova York, ele chegou à conclusão de que poderia ser feliz numa vila de pescadores. Escolheu a Guarda do Embaú, em Santa Cantarina. Ou melhor, foi escolhido por ela. “Conheci esse lugar quando tinha 17 anos e me apaixonei. Desde então, sempre me imaginei vivendo aqui, o que se concretizou em 1997”, conta ele, que pulou a fase de adaptação. Além de se sentir acolhido pelo vilarejo desde o primeiro contato, Zulu nutria profunda identificação com o estilo de vida praiano. Afinal, já era amante das ondas e de uma rotina saudável no Rio de Janeiro, sua terra natal. Hoje, ele se divide entre os compromissos profissionais, a família e o gerenciamento de sua pousada, a Zululand, também na Guarda do Embaú. Gosta desse balanço sutil entre o agito do mundo e a paz de seu canto. Ele pode até partir, porém tem muitos motivos para voltar. “A natureza, a qualidade de vida, a tranquilidade, a pesca, o surfe, as condições de construir um bom patrimônio sem ter muito capital”, enumera.

 

Já Letícia Previatti, modelo e cantora paranaense, fez o percurso inverso ao de Zulu. Deixou para trás o sossego de Corbélia, cidadezinha com 20 mil habitantes, para realizar seus sonhos na inquieta capital paulista. Tinha apenas 16 anos. Chegou sozinha, como tantas outras garotas, abastecida de coragem e determinação. “Sempre fui ligada à moda e às artes em geral. Precisava estar onde as coisas acontecem, no meio dessa diversidade”, diz. O início foi complicado. “São Paulo é um monstro, de tão grande. As pessoas e a rotina, aceleradas. Em minha cidade, as famílias almoçam em casa e o comércio fecha durante esse período”, compara. Mas os anos passaram e as oportunidades surgiram, trazendo amigos, amores, crescimento, cultura, diversão. “Hoje me considero uma paulistana nata. Não consigo me imaginar em outro lugar, apesar do trânsito, do estresse, da insegurança nas ruas. Já avisei minha mãe que não volto para Corbélia”, diz, rindo.

 

O chamado, em outros casos, vem de territórios bem mais longínquos. Até mesmo dos porões do inconsciente, como revela a mato-grossense Marley Gonçalves. “Em 1999, sonhei sucessivas vezes que estava numa casa onde as pessoas falavam inglês. A repetição me deixou intrigada”, lembra. Nesse meio tempo, viu nos classificados o anúncio de uma empresa que estava contratando babás para trabalhar na Inglaterra. Bingo! Marley seguiu as pistas dos sonhos e se deixou surpreender pelo destino. Fez as malas e rumou para Londres, desprovida de contatos pessoais e sem falar a língua local (a guinada bem lembra o gesto da escritora americana Frances Mayes, que, de supetão, decidiu viver numa casa de campo centenária na Itália, história contada no best-seller Sob o Sol da Toscana, que virou filme estrelado pela atriz americana Diane Lane). O plano de Marley era ficar seis meses. Lá se vão 14 anos. O estranhamento em relação à cultura, aos hábitos e ao clima aos poucos foi sendo ofuscado pelo encantamento. “Não posso dizer que não passei maus bocados. Mesmo assim, a Inglaterra e os ingleses foram me conquistando com sua história, beleza, honestidade, respeito, profissionalismo, patriotismo”, ela se derrete. O mesmo acontece quando cita os parques, os jardins, os tons do outono, a neve, os museus, as galerias, os concertos. “Fui abrindo meus olhos para outra realidade: leis que se cumprem, ordem e progresso. Minha vida se tornou mais fácil, prazerosa e segura. Por isso, amo essa terra fria, mas que aquece minha alma”, declara. O Brasil virou sinônimo de saudade. “Sinto falta do calor humano que só nós brasileiros temos, do sol, das praias e da comida”, confessa.

 

Esse “combo” tropical, somado à magia de uma cultura ancorada na gentileza e na devoção, além da possibilidade de desbravar o Sudeste Asiático, foi justamente o que atraiu o jornalista Eduardo Petta e sua esposa, a fotógrafa Carol Da Riva, ambos nascidos em São Paulo, para a paradisíaca Bali, na Indonésia. O casal já havia se enamorado do país em 1997, quando permaneceu por seis meses na então deserta praia de Padang-Padang. Eles prometeram regressar no ano seguinte, porém a vida acabou propondo outro enredo. Em 2011, compraram tíquetes para uma visita de três meses ao arquipélago. De malas quase prontas, tiveram de rever os planos ante a notícia da gravidez da segunda filha, Luisa. E não é que o bebê trouxe à baila a possibilidade de a família se estabelecer por lá? Segundo Petta, dois fatores determinaram o sim. “Pesquisando na internet, achamos uma parteira alucinante e uma escola incrível para o Tiago, nosso filho mais velho, chamada Green School”, conta. A comunidade que orbita essa visionária escola de caráter multicultural e sustentável só contribuiu para consolidar a inclusão da família no novo cenário, aliás, não muito distinto da Praia do Félix, em Ubatuba, no litoral paulista, onde morou e ainda mantém uma residência. Se de um lado a trupe se afastou das cachoeiras ubatubanas, da horta no jardim, dos beija-flores locais e do surfe com os amigos brasileiros, de outro ganhou algo que, segundo Petta, não há em nenhum outro lugar do globo – e olha que o clã goza de altíssima quilometragem. “O povo balinês, com sua fé, sua magia, sua energia e seu sorriso no rosto, faz qualquer um se sentir bem recebido. Amamos suas cerimônias, andar pelos campos de arroz nos finais de tarde, ir aos templos e, claro, o surfe em ondas perfeitas, que não existem no Brasil.” Como se vê, cada um tem seu Éden particular, que também pode ser a casa que nos oferece guarida todo santo dia. Quem habita o mesmo endereço décadas a fio, muitas vezes resguardando um patrimônio familiar, conhece o significado do zelo pela memória impressa no mobiliário, nos retratos, nos adornos e nos aromas que acordam lembranças, inspiram cumplicidade. Nas moradas de longa data, os cômodos parecem ter olhos, ouvidos e boca. São entidades em diálogo perene com os moradores. Assobiam canções de outras épocas, evocam cenas e conversas. Fazem brotar gratidão pelo teto que abriga desde as miudezas do cotidiano até nossos anseios mais valiosos. Iluminam diante de olhos invariavelmente cansados não apenas os tesouros ocultos sob nossos pés como também as múltiplas descobertas que palpitam porta afora, como bem observou a escritora Cecília Meireles no poema A Arte de Ser Feliz: “Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro”.

 

Fonte: Raphaela de Campos Mello para Revista Bons Fluidos

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Comentários

  • #1 elianelepka
    12/09/2013 15:41

    nossa amei esse saite

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