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O mundo está ficando mais chato: Será que o "politicamente correto" é censura?

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Assim já é demais. Não se pode falar mais nada! Imagine só, era piada. Ninguém aqui está dizendo que eles são piores, é só ter um pouco de senso de humor. Olha, antes a gente podia falar o que quisesse e não vinha ninguém reclamar, encher a paciência, fazer petição, entrar com ação, começar campanha na internet. E agora vêm querer me dizer que aquela obra antiga, consagrada, está errada também. Eita povo chato.

As falas acima foram encontradas em entrevistas, livros e comentários na internet. Todas têm algo em comum: foram feitas para criticar o tal do "politicamente correto". Em alguns casos, comentavam o pedido de proibição da campanha de uma marca de lingerie que incentiva a mulher a conseguir o que quer usando seu corpo. Outros, o pedido para que uma obra do escritor Monteiro Lobato não fosse distribuída em escolas públicas por conter trechos racistas. É fato que, cada vez mais, há pessoas reclamando de piadas, peças publicitárias e textos considerados ofensivos. E isso está gerando incômodo.

O politicamente correto surgiu durante o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, nos anos 1950 e 1960. Na época, a luta era contra a segregação oficial que as leis impunham, que chegavam a separar, fisicamente, negros e brancos, por exemplo. Depois de conquistado o direito à igualdade, era preciso combater a discriminação social, veiculada por meio de expressões, piadas e textos.

Um das bases para reivindicar essa mudança de atitude está no filósofo John Dewey, que considera que o uso da língua não é neutro. As palavras escolhidas expressam opiniões e têm conteúdo político. Assim, a linguagem também é um instrumento de discriminação e segregação e, por isso, não se devem usar expressões que reforcem preconceitos. Essa ideia se estendeu para outros movimentos políticos em favor de minorias, como o LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) e o feminismo.

Para o jornalista Leandro Narloch, autor de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Leya), o politicamente correto é "uma patrulha ideológica, uma perseguição a modos diferentes de agir ou ver o mundo". "Não tenho nada contra muitas bandeiras politicamente corretas. Elas não são o problema. O problema é a postura contrária à liberdade, de querer impor seu ideal de felicidade a outras pessoas", diz ele.

 

 

Poder das palavras

Jean Wyllys, deputado federal pelo Rio de Janeiro e militante pelos direitos de minorias, rebate. "Alguém que cresce sob o insulto estabelece consigo uma relação de baixa autoestima", afirma. "Uma pessoa negra que foi criada num ambiente e numa cultura racistas, sendo chamado de `macaco', sendo chamado de `picolé de asfalto', ouvindo piadas do tipo `branco correndo é atleta, negro correndo é ladrão', essa pessoa vai crescer com uma relação de negação consigo."

O humor é um dos espaços em que a batalha entre o lado correto e o incorreto da política tem acontecido com mais frequência. Recentemente, o diretor Pedro Arantes lançou o documentário O Riso dos Outros, obra essencial para quem se interessa pela questão. Sua discussão é: humor deve ter limite? No filme, humoristas como Rafinha Bastos (que já foi processado por causa de piadas), Danilo Gentili e Fábio Rabin argumentam que, se o público ri de tiradas preconceituosas, o preconceituoso é o público. Já o escritor Antonio Prata coloca a responsabilidade maior nas mãos e microfones dos humoristas. "Quando você é racista, você não está fazendo nada de transgressor. Você está assinando embaixo da realidade. Está dizendo: `O mundo é desigual e eu estou rindo disso'." O cartunista Laerte concorda. "Discurso humorístico é um discurso ideológico", diz ele, no filme.

Mesmo Narloch vê limites nessa escolha: "Muita gente confunde o politicamente incorreto com falta de educação, racismo ou vontade adolescente de chamar a atenção". O politicamente correto pode, sim, ser usado em excesso e acabar virando patrulha do comportamento. Jean Wyllys enxerga isso em parte. "Eu até concordo e gostaria de frisar que há exageros", diz. "Mas é muito confortável apontar os exageros do politicamente correto e não apontar os exageros do politicamente incorreto. Os exageros são maiores e bem mais constantes, mas ninguém fala disso."

É importante, então, entender o que é o politicamente incorreto, e que visão é essa que, ao detectar um novo tipo de comportamento na sociedade, procura classificá-lo e torná-lo objeto de humor. É uma visão específica de mundo. Qual seria ela?

"É uma visão eurocêntrica. A cultura ocidental se constituiu dentro de um núcleo duro que é protegido, que é valorizado por todas as formas discursivas, não só pela língua, mas na TV, na publicidade, na pintura, na literatura. Privilegiou e continua privilegiando os brancos, os ricos, os magros, os bonitos, os heterossexuais e os cristãos", diz Jean Wyllys. A liberdade de expressão nunca foi universal: um negro nos anos 1950 não podia fazer piada com os brancos, por exemplo; ele certamente seria punido por isso.

Esses privilégios também podem ser conferidos na vida real. Segundo o IBGE, as mulheres ganham salário 28% menor que o dos homens no Brasil. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que os negros recebem 40% menos por hora trabalhada que os brancos. Uma das promessas de campanha de Barack Obama, presidente eleito dos EUA, é equiparar os salários de homens e mulheres no país. Esses dados são importantes porque mostram algo significativo: o discurso é reflexo de uma tendência que se manifesta de outras formas. Ou seja, a discriminação não é algo que ocorre apenas por meio das palavras. Há uma face real e concreta da marginalização que não pode ser ignorada.

 

 

Novas vozes

Gays, negros, mulheres, pessoas com deficiência: essas pessoas fazem parte de grupos que tiveram seus direitos historicamente negados. Antes, elas não podiam reclamar, entrar na justiça nem fazer passeatas. Mas agora elas podem. E fazem uso dos instrumentos legítimos disponíveis para evitar que o preconceito seja espalhado sem controle. E aqui não se trata só de proibir.

Um bom exemplo é o caso do pedido que o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara) fez ao Ministério da Cultura. O livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, foi incluído na lista de materiais didáticos a serem distribuídos para escolas públicas do país. Publicado em 1933, o texto contém frases e expressões racistas, voltadas à personagem negra do Sítio do Picapau Amarelo, a Tia Nastácia.

Segundo o edital do PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), livros com estereótipos não podem ser comprados se não houver notas explicativas que contextualizem a obra. Antonio Costa Neto, membro do Iara, explica: "Na época de Lobato, a legislação era eugênica, de valorização da cultura eurocêntrica e desvalorização da afro-brasileira. O que aconteceu em 1988? A Constituição diz que o racismo passa a ser crime e que nós devemos valorizar as diversas etnias que formaram a nação brasileira".

Segundo ele, o que se pede é que o livro seja acompanhado por um material didático que o contextualize. Ao contrário do que muitos pensam, não se trata de "censurar" nem de "apagar" trechos da obra.

Lutar pelas palavras não é só implicância. Jean Wyllys exemplifica. "Durante muito tempo, as mulheres foram alijadas de direitos porque a Constituição dizia `eleitores' e não `eleitoras'." Algo que parece ser apenas preciosismo pode, na verdade, mascarar atitudes de exclusão.

É preciso pensar, então, no poder que temos ao nos expressar. Porque não se trata só de nos policiar para evitar processos e de afastar os "chatos" à espreita. Talvez seja o caso de pensarmos em aspectos que antes não vinham à nossa cabeça, de revisar comportamentos que antes passavam batidos porque não havia quem nos questionasse. Com essa mudança de perspectiva, tomar cuidado para não perpetuar preconceitos, em vez de significar menos liberdade, passa a significar mais. Mais liberdade e voz para quem antes não tinha.

 

FONTE: Revista Vida Simples

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