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Cozinhar + reciclar = estimar: Dicas para não deixar desperdiçar comida

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"A chuva está caindo na copa do meu chapéu, quando vou para sua casa parece que vou para o céu." É assim que me sinto como hóspede de dona Francisca, minha ex-faxineira rezadeira, e o marido, seu Antônio. Aqui, o dia começa junto com o canto do galo. "Deitar cedo, e cedo erguer, dá saúde e faz crescer." Eu estou na cama, tranquilinho ainda, quando ouço dona Francisca caminhar pela casa orando e abençoando. Na hora do café, ela abraça o pão com as mãos e diz: "Que traga união e paz". Após a faxina, joga pétalas de flores nos quatro cantos da casa com uma boa intenção e deixa por três dias.

 

 

Faz isso, faz aquilo, ela insiste que "temos de fazer o melhor, sem esmorecimento e com esclarecimento". 

 

Aí tem coisa... Pensei, enquanto fui ajudá-la a abençoar, digo, a cozinhar. "Como conversa não cozinha o arroz", aprendi: se ele queimar, não jogue fora. O gosto e o cheiro ruins diminuem ao juntarmos uma cebola cortada ao meio. Se o bolo não ficar bem assado, molhe-o com um pouco de leite frio e volte ao forno médio. Requentar o café? Pode, em banho-maria. Dona Francisca não desperdiça nada e, agindo assim, já está em sintonia com uma das grandes campanhas do ano.

 

Em 2013, o Dia Mundial do Meio Ambiente (5/6) teve como tema "Pense, Coma, Poupe - Diga Não ao Desperdício", pois, apesar de uma em cada sete pessoas do mundo passar fome, um terço da produção de comida é ainda desperdiçado, junto com os recursos naturais utilizados (em nível global, 70% da água potável, 80% do desmatamento). Se cada um de nós deixa um só grão de arroz no prato, no final, toneladas irão para o lixo. E o que dizer dos legumes e verduras, mais sensíveis?

 

A salada, Francisca só tempera no prato para não murchar e ser reaproveitada depois. Mas e se a alface e a couve já estiverem murchas? Ressuscite-as na água com suco de limão por uma hora na geladeira. Cenouras velhas? Corte as pontas e coloque em um pote cheio d’água por uma noite. Se os biscoitos amolecerem, leve-os ao forno aquecido. Os tomates se recuperam na água quente salgada (dois minutos), esfriando na geladeira. A parte branca da melancia (energética), Francisca refoga com tempero e serve igual a chuchu. Talos de verduras enriquecem tortas, feijão e sopas. E a comadre ainda faz "palmito de mandioca", para preservar os palmitais, com a casca branca, que é picadinha, aferventada e cozida. "É preciso estimar o mundo, sem esmorecimento", ela diz. 

 

Tá bom, mas e o "esclarecimento"? Francisca não responde e me pede para ajudar no doce. É um tal de trocar a água da fruta, duas, três, quatro águas, e a gente aqui com água na boca. "Não pode ter pressa de tirar o amargor e revelar a doçura", ela ensina. De repente, entendi o "esclarecimento": na convivência de cada dia, "remover pedras amargas e plantar roseiras doces", pensei, brincando com o poema de Cora Coralina. A cada dia, reciclar as relações, reaprender a estimar. E Francisca cantarolando: "A vida é como a rosa, cultivada com ardor, ficará mais formosa se regada com amor".

 

Fonte: Carlos Solano para Bons Fluidos

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