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Comportamento: Nossas doces transgressões

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Não somos seres livres. Sequer chegamos a conquistar o que se convencionou chamar de "livre-arbítrio". Mas sobre isso falaremos numa próxima vez. Por enquanto, o importante é compenetrar-se de que vivemos permanentemente acorrentados a um esquema de vida que nos instiga a fazer as coisas sempre da mesma maneira, agindo de preferência da mesma forma que os outros ao nosso lado. E a sociedade aprova essa nossa submissão ao já tradicional e estabelecido: paga-nos com salários, prêmios... ou aplausos. Promete-nos um mundo de oportunidades para sermos tão felizes e prósperos quanto nos desejam os sorrisos gelados nos outdoors de final de ano. Do contrário, ao menor sinal de rebeldia em relação às normas de conduta normalmente aceitas, o que ganhamos é a punição. E existem várias formas de ela se mostrar. Uma delas é torturando o "desafiante", plantando nele uma semente que, se a princípio apenas incomoda, acaba por crescer exponencialmente, tomando conta dos seus atos e pensamentos. O nome dessa semente é culpa.

Mas calma! Não é apenas a sociedade, "lá fora", a responsável pelo plantio dessas sementes em cada um de nós. Ela pode ser freqüentemente chamada de fria, calculista, interesseira, arbitrária, que se nutre através de normas estáticas e viciadas apenas para nos manter aos seus pés, dependentes. Tudo bem. É verdade. Mas essa sociedade somos nós. Sou eu. É você. Não se ponha fora disso! Fazemos exatamente a mesma coisa contra nós e contra os outros. Usamos dos mesmos artifícios - apenas com outros nomes, menos pesados - para manter sempre da mesma forma aqueles que estão ao nosso lado, exatamente para que não mudem. Somos mestres em atravessar a culpa garganta adentro daqueles a quem queremos manter dentro de padrões que nos mantêm seguros, mas não a eles. Existem várias técnicas para isso, e todas estão agrupadas dentro de um livrinho precioso, muito lido, que costumamos manter sempre à mão, junto à nossa cabeceira, chamado "Formas Sutis para Controlar a Vida Alheia". Já deve estar na milionésima edição, só nesse país! Com ele, aprendemos que uma das formas mais eficazes de se fazer com que alguém venha a fazer exatamente aquilo que queremos, é enchê-lo, dos pés à cabeça, com essa matéria densa, degradante, cancerígena, chamada culpa.

Nós mesmos nos impomos, conscientemente ou não, punições de todo tipo, principalmente na forma de autoboicotes. Eles costumam ocorrer quando sentimos que estamos entrando num campo "perigosamente livre", que sorrateiramente vá nos preenchendo com a sensação de algo "novo demais" - apesar de muito bom - e, portanto, desconhecido. Sem saber como, de repente, os planos tão longamente sonhados, que começavam, finalmente, a dar certo, passam a dar sinais de estarem descendo morro abaixo. Ou mesmo quando enfrentamos uma determinada situação que, apesar de poder representar uma melhora substancial em nossa qualidade de vida, vem se confrontar com medos cuidadosamente alimentados durante anos. Em situações como essa o medo costuma vencer, e os planos ou as situações promissoras, por carregarem consigo a possibilidade de virmos a fazer o que nunca antes tenhamos feito, começam a fracassar. Situações novas, mesmo que longa e profundamente ansiadas, nos arrancam de uma condição atual que, apesar de ruim, monótona, sem graça ou dolorida, tem a grande e pesada vantagem de ser já conhecida.

Assim, somos ainda movidos pelo medo de fracassar, sem nos percebermos que já estamos, há muito, estagnados em nossas vidas. E pelo simples fato de não ousarmos o novo. É claro que as novas incursões por "mares nunca dantes navegados" devem procurar o menor risco e o máximo de condições através das quais se possa ter uma chance ao menos razoável de sucesso. Cada um deverá saber que estudos fazer e quais métodos seriam os mais apropriados. No entanto, é a idéia de sermos pequenos, falíveis, a nossa principal barreira. Contra esse sentimento, apoiamo-nos na consciência daquilo que podemos realizar e, principalmente, do conhecimento das formas que possuímos para alterar o mundo fora de nós, tão logo saibamos aparar as milhares de arestas que fomos deixando de lado durante a nossa construção interior.

Pecado é transgredir o seu "melhor". A culpa é, exatamente, o sentimento que nos invade quando sabemos que esse nosso "melhor" foi negligenciado. É quando sabemos, bem no fundo, que poderíamos ter feito diferente. Entre todas, esta é uma das dores que mais machucam.

* Ricardo Bohek
Astrologia, Espiritualidade, Metafísica do Comportamento
E-mail: ricardo-bohek@uol.com.br
 

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