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Encontre-se: O que fazer diante da porta sem retorno?

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Muitos foram os acontecimentos que me fizeram confiar na intuição sem questionamentos ou julgamentos. Baseado nisso, dei sempre atenção a aqueles livros que me chamavam nas vitrines das livrarias. Alguns deles lia imediatamente. Outros guardava para o momento certo. Muitos deles levaram anos para serem abertos e lidos, e alguns nunca foram lidos e acabaram sendo doados porque sentia que a nossa relação havia se esvaído sem a necessidade de lê-los. Tornei-me fluente em inglês por essa necessidade porque nas minhas andanças pelo mundo passei a sentir atração irresistível por livros em outras línguas, sem tem a menor idéia do que tratavam.

Nos anos oitenta, as livrarias brasileiras eram poucas e pobres de espírito, então devorava os livros de Lubsang Rampa que achava nas bancas de revista e jamais perguntei como eles foram parar lá. Foi nessa época que fui atraído pelo "Bardo Thodal", "O livro dos mortos tibetano", publicado em 1980 pela Editora Hemus, traduzido do sânscrito pelo Lama Kazi Dawa Samdup. Jamais abri o livro, que é uma história de mais de 3000 anos. Certa vez cheguei a doar 700 livros para a Universidade de Brasília, anonimamente, mas esse foi um dos livros que jamais doei. Em 1994, em Hong Kong, a edição em inglês do Bardo puxou os meus olhos e o comprei. Na África em 2002, repetiu-se a cena com a edição em inglês publicada em 1998. Jamais li nenhum deles.

Ontem à noite esse mistério foi desvendado. No meio da noite senti-me fora do corpo de frente para uma porta de "vidro" transparente, vendo tudo com clareza à minha frente. Depois da porta havia um grande vazio e do outro lado do vazio havia médicos e enfermeiros à minha espera, inquietos. Nesse espaço vazio entre nós era como se fosse uma casa abandonada sendo pintada com cal. Era como se fosse um saco de plástico cheio de ar, onde o tempo era uma ilusão. As informações saltavam na minha mente como se fosse velho conhecido daquele processo (e todos nós já passamos por ele). Imediatamente sabia que estava morrendo e os médicos e enfermeiros esperavam do outro lado para ver o que aconteceria. A minha intuição dizia que se atravessasse aquela porta de vidro teria que enfrentar aquele lugar vazio antes de chegar ao grupo de atendentes e nesse espaço de tempo muita coisa aconteceria comigo porque todos os meus medos seriam revelados, assim como imagens e memórias de coisas, pessoas e espíritos amigos e inimigos, crenças e tradições falsas e verdadeiras, desta e de outras vidas. Um processo doloroso e perigoso, onde muitos se perdem e onde já me perdi em outros tempos.

Dei uma volta para ver se havia outra saída e percebi que estava dentro de um certo avião, sozinho, que levava de volta àquela porta. Quando parei novamente diante da porta de vidro ouvi vozes, com sotaque chinês, que me chamavam de Santosê (como meus amigos chineses chamam) e pediam para "voltar". Vi que o grupo de médicos e enfermeiros ficava mais inquieto como alguém que perde a paciência com uma criança teimosa que não sabe o que quer. Resolvi olhar para trás, de onde vinha o chamado. Neste instante me vi na cama sendo sufocado por travesseiros e cobertas. Imediatamente fui sugado para meu corpo e nele abri os braços retirando os lençóis que me impediam de respirar. Respirei fundo e abri os olhos. Sim, estava morrendo sufocado e só, na hora errada, por causa do excesso de lençóis e travesseiros na minha cama.

Hoje resolvi ler as instruções dos lamas tibetanos sobre o processo da morte, tão bem explicado em Bardo Thodal e não fiquei surpreso ao perceber que a descrição do processo é igual ao que senti diante daquela porta de vidro. Esse livro é uma aula que todos precisamos ter. O processo de desligamento do corpo pode ser mais dolorido e confuso do que o nascimento - o nascimento é um despertar de um longo sono dentro de nova realidade. Quem ultrapassa aquela porta, e não tem estrutura emocional para isso pode jamais ser recebido pelos plantonistas, e se perder por muito tempo na imensidão sem relógios. Do outro lado da porta, o tempo e a distância duram uma eternidade. Aquele trecho que ora me parecia um saco de plástico vazio e grande e ora uma casa vazia em reformas já era parte da ilusão a que somos acometidos no pós-morte. São as imagens do nosso inconsciente, da nossa história fragilizada, do turbilhão de memórias que somos constituídos, quer queiramos ou não. Jung preferia chamar isso de "sombra" e a define como um grande saco onde a gente guarda nele todos os pedaços, importantes ou não, da nossa história desde o nascer. Não importa o nome que receba: esse processo é solitário e a gente é obrigado a enfrentar o que jamais conhecemos de nós mesmos, em vários níveis da consciência e da inconsciência.

A estrutura emocional que precisaremos ter pode ser construída e todos somos capaz disso se tivermos os olhos para ver e a inteligência para discernir e filtrar o aprendizado a que somos submetidos desde a barriga da mãe até o momento presente. Quem aqui se perde jamais se achará ao atravessar aquela porta de vidro. Desta vez fui chamado por amigos porque estava na hora errada de partir. Da próxima talvez esteja sozinho, com o relógio esgotado e o contrato encerrado. Como irei reagir depois da porta? Não sei. Depois da leitura do Bardo Thodal o processo da morte me parece interessante para quem tem a sorte de ter alguém preparado para ler as recomendações assim como fazem os monges tibetanos. Em todo caso, ao tomarmos conhecimento de que existe um processo já é meio caminho andado. Tomar consciência é a chave para o fim do sofrimento. Ler e perceber o processo ajuda muito.
Esse livro deveria ser lido na cabeceira dos doentes terminais nos hospitais, por exemplo. Quantos morrem sozinhos, abandonados, sem assistência espiritual alguma? Quantos morrem com a assistência errada, que ao invés de ajudar conduz a pessoa a culpas e "pecados". Tomara que um dia os hospitais brasileiros admitam terapeutas holísticos - e não representantes de religiões -- que possam trabalhar nessas tarefas indispensáveis e para as quais os profissionais da saúde não estão preparados e acredito que jamais poderão estar, pela própria natureza do trabalho. Quem sabe um dia a rigidez mental insana de alguns, em nome da saúde pública, possa dar lugar à razão e à democracia. O universo agradecerá.

(*) José Joacir dos Santos é Psicoterapeuta e Jornalista
E-mail: joacir_8@uol.com.br

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